sexta-feira, 20 de maio de 2011

Um boi zebu já fez muitos milagres


Performance
Poética
















Um boi zebu já fez muitos milagres.

ANDRÉ DE ANDRADE



CARIRIZINHO

Que chapada encantada cabocla
Corro sete léguas de uma fonte à outra
Cheguei ao mundo em noite de lua
Floresta nua para me receber
Do grito da índia que me pariu
Raio, trovão, fonte se abriu
Abalou a mata encantada
Salve curumim, minha chegada

Ê minha mãe cabocla Dolores
Eu quero papa de piqui
Ê Dolores cabocla minha mãe
Eu sou guerreiro cariri

Sou o mistério oculto das matas
Sou água doce das cascatas
No tronco do pequizeiro
Tem uma tribo, um terreiro
Tem oferendas para jaci
Tem oferendas para Guaraci
A nossa tribo está armada
A nossa mata está guardada
Toda riqueza da chapada
Quem destruí leva flechada

Flechada minha mãe Jurema
Flechada Tupã meu pai
Quem destruir a chapada
Flechada, flechada, flechada

Flechada minha mãe flechada
Flechada minha mãe flechada
Flechada Tupã meu pai
Quem destruir a chapada
Flechada, flechada, flechada


Que milagre divino Beata
A santa partícula sangrou
Foi o nazareno que se manifestou
Milagre! lua gemeu, sol suspirou
E povo escolhido na luz da fé canta
Mãe de Deus é proteção na guia
E segue pau de arara na vida da estrada
Salve romeiro, minha chegada

Gloria meu santo padrinho Ciço
Sou forte, sou Juazeiro
Gloria santa Beata Maria
Tenho fé, eu sou romeiro

Sou Nordeste sertão encantado
Dentro da hóstia santa guardado
Santa das dores conosco festeja
Sem fome, sem peste nem guerra, assim seja
Proteja-nos das ciladas do cão
Das artimanhas da inquisição
O cajado de meu padrinho
Abre todos os caminhos
Estamos livres de todos os perigos
Quem duvidar leva castigo

Castigo madrinha beata
Castigo meu padrinho ciço
Contra as ciladas do inimigo
Castigo, castigo, castigo

Que doce rapadura minha nega
Liberdade custa, mas um dia chega
Um canto de abolição chegou
Atraca negro cativeiro acabou
Agora nega eu já posso sorri
Liberdade, liberdade cariri
No caldeirão eu vou fazer morada
Sou Beato preto, saravá minha chegada

Saravá preta velha carpideira
Sou negro, sou penitente
Saravá Oxossi, e Xangô
Sou o samba, sou nagô 
Sou o oculto das forças de Olorum
Tenho a beleza e as riquezas de oxum
Sou a fachada dos ilês coloniais
Sou todo o verde destes canaviais
O que arô meu pai Oxossi capitão
Desse meu barco atracado no sertão
Com a força de Iansã e o axé de Oxalá
O sertão vai virar mar, mar de Iemanjá
Preconceito de cor se enterra  na tumba
Quem for racista leva macumba

Macumba pomba gira molambo
Macumba exu das catatumbas
Quem tiver preconceito de cor
Macumba, macumba, macumba

O LIVRO

O livro é o desassossego do ser
A escada para o sótão
É parte de um sonho não sonhado
É um achado que nunca foi perdido
Viajem em todas as direções
Emoções por todos os lugares viajados

O livro é a intranqüilidade do ser
Ânsia e pressentimento
Imaginação veloz que voa
Atravessa a noite e vai ao futuro
Quando retorna de quase tudo esquece
E se surpreende quando amanhece

JUAZEIRO VELHO

Juazeiro velho, árvore antiga
Príncipe das vegetações
Vassalo das ilusões dessa caatinga
Galho sem espinho
Sem ninho de passarinho
Sozinho no cerrado triste
Juazeiro você também assiste
A solidão desse velho amigo
Que tem por sina o castigo
De sozinho viver a vida
Com a doce lembrança sofrida
Como tua folha caída no vento
Que foi levada e nunca voltou
Assim num momento se foi meu amor
Passou-se o tempo e tudo acabou
Velho eu, velho tu Juazeiro
No desespero da solidão
Nunca mais tua copa viçosa
Nunca mais a morena formosa
Nunca mais amor no sertão

PARA CRIANÇA OUVIR

Era uma vez uma menina pobre, negra e feliz
Não a conheci, mas imagino que era feliz
Pensando bem era mais ou menos feliz
Pois vivia em uma região onde a seca castigava
E a vida era muito difícil no sertão nordestino do ano de 1872
Essa menina era um ser humano maravilhoso
Conheceu um padre e passou a ajudá-lo na igreja
Uma igrejinha com imagens, rezas e novenas
Essa menina se chamava Maria Madalena do Espírito Santo de Araújo
Sua vida foi de trabalho e dedicação ao padre, a igreja e a religião
Mas aconteceu um fato espetacular
Um dia uma hóstia se transformou em sangue na boca de Maria
Isso seria apenas um fato simples e comum se ficasse em segredo entre o padre e Maria
Mas aconteceu que se repetiu por muitas vezes e muita gente viu
Então alguns disseram que foi milagre, outros que foi uma farsa
Muita gente queria apenas adorar o padre, a Maria, o sangue
Outros condenavam tudo aquilo
E a hierarquia da igreja repreendeu tudo
Proibiu o padre de exercer sua função
E humilhou, castigou, prendeu e fez calar Maria
Depois de algum tempo Maria morreu e foi quase apagada da História
Hoje muita gente afirma que ela foi um ser humano cheia de espiritualidade, força, fé, amor e coragem
E eu fico pensando...
Se em lugar de um padre tivesse aparecido no sertão nordestino um pastor protestante, um rabino, um líder budista, uma mãe de santo ou um muçulmano; será que a História de Maria teria sido outra?

AULA DE HISTÓRIA

Minha velha mãe nunca foi à escola
Mas era senhora das histórias
Quando criança ouvi e aprendi
Que o mundo era minha aldeia

Das fantásticas narrativas populares
Carregada de misticismo no Cariri cearense
Mãe contava
Que a serra do Catolé, hoje bairro Horto
Era o Monte Calvário onde Jesus foi crucificado
Que o rio Salgadinho já se chamou Jordão
Que padre Cícero era o mesmo Frei Damião
Que não era só gente que virava santo
Um boi zebu já fez muitos milagres
Que comunismo e capitalismo eram coisas do cão
Que economia devia ser: trabalho, disciplina e oração
Como no Caldeirão do Beato José Lourenço
Aprendi que tínhamos nossos própios santos
Não precisávamos importar da Europa
Que cangaceiros foram heróis
Que vencemos grandes guerras
E que para chegar à Itália bastava ir a cavalo
Padre Cícero foi a Roma de cavalo.

O tempo passou e surgiram os narradores oficiais
A História ficou chata.
Só em minha mãe encontrei verdade
Hoje quando penso História
De minha infância tenho a lembrança por sorte
E o mundo ainda cabe dentro de minha
Juazeiro do Norte.

CNPJ

Hoje em dia ONG é vaca de leite
Oh! Vaquinha pra dá dinheiro
Dinheiro nosso do imposto
Que causa desgosto ao vê-lo no curral
Não governamental
Oh! Vaquinha legalizada...
Documentada
Vacinada
Com presidência e tesouraria
Mas a vaquinha ta com fome!
Não se avexe não
Tem recurso que dá pro gasto; pois
O Reisado é pasto...
Deficiente é pasto...
Doente é pasto...
Afrodescendente é pasto...
A cultura é pasto...
O idoso é pasto...
Depois disso o adubo
Que é aproveitável
Nas flores que enfeitam tudo isso

VOCÊS QUE ME FIZERAM ASSIM

Agora aos trinta, por trinta moedas me vendo facilmente
E facilmente meus compassas, amigos e inimigos se vendem também
Leio a matéria no jornal e não decifro as metáforas, portanto não sei da verdade
Escrevo um artigo e publico com a mesma intenção
Agora muito mais eu bandeira pessoal
Democracia, solidariedade, liberdade
São apenas máscaras
Precisamos delas para ter platéia no nosso monólogo da vida: política, acadêmica, religiosa e sexual
Revolução hoje é um projeto coletivo
Construído por fatias individuais
Quero meu pedaço do bolo
Não posso imaginar que me transformei nisso
Um monstro capitalista assumido
Em meio a tantos outros
Que ainda não estão completamente transformados
Agora estou preso a cifras e metais
E apesar de esforço enorme
Não consigo cantarolar a melodia
“pra dizer que não falei das flores”

 PRÍCIPE DOS POETAS

Mora na minha aldeia o príncipe dos poetas populares
Um brasão brasileiro
Pedro Bandeira do Juazeiro do Norte
Que o Ceará tem por sorte
Ter essa grande estrela
É o nome mais importante vivo
Uma fonte jorrando poesia
Do Nordeste o mais cativo
Menestrel de grande categoria

Bandeira é príncipe coroado
Que deve ser matéria escolar
Seu nome deve ser aclamado
Pois Bandeira é patrimônio popular

AMOR
O amor é astro lua
Com suas fases diversas
E inesperados fenômenos
Quando se ama crescente
Já cheia descontente
Minguante de decepções
Ressurge cheia de ilusões
E por esses dilemas complexos
Cíclicos e isanos
Só conhecemos a dor
Mas uma força o espaço invade
E um eclipse fatalidade
Traduz o inexplicável amor 

PARA ÊDMAIS

Você já imaginou amar sem nada cobrar
Sem apelo, sem zelo, só compromisso de se dar
De se entregar sem limites
Na doce ânsia de querer aprender sobre o amor
De aceitar toda delícia propiciada
De sofrer toda solidão inesperada
E dizer sim ao amor em qualquer circunstância
De transitar entre duas histórias
Ser hoje amado ou amante
Ser complacente por demasia
Por ironia nunca perder as esperanças
Mesmo amanhã sendo só lembranças
Mas o amor é que prevalece em seu formato
Indecifrável, incompreensivo, intacto e puro
E que em cada futuro pode ser revisitado
E sempre vai haver amantes e amados
Sendo ele, eu ou você
E em cada história um dos lados
Vai ter que sofrer   

ANJINHO

Quando descobri o brilho cintilante
Da purpurina no ar
Minhas retinas a dançar
Eu era menino flor
A flor do meu sexo oculta
Por um uniforme azul

Quando descobri que era anjo
Botei as asinhas de fora
Brinquei com os querubins
Eu era menino rosa
A rosa do meu sexo amostra
Brincadeira dos serafins

Quando me tornei arcanjo
Entrei para a milícia da paixão
Batalhas venci; batalhas perdi
Mas conquistei o posto do amor

Ainda sou
O menino rosa
O menino flor

POÉTICA

Escondo-me desde menino
Para depois me mostrar excessivamente

A triste alegria
Solta amarrada
Grita calada
Em mim

Não aprendi a viver
Nem a morrer
Existo no meio

Fico quando a caravana passa
Passo da caravana

Em todo tempo
Em todo canto
Em todo pensamento
Estou contido

Sou o verbo e seu poder
Que no princípio fez acontecer
Para tudo um sentido 

PARA MARIA BETHÂNIA

Sinto o teu canto no silêncio
Tua música é contínua
Senhora da melodia
Senhora da poesia

Como da concha o som do mar distante
Alegra aqueles que não conhecem
O canto que das ondas do mar nasce
Tua voz arrebata de emoções
Aqueles que não contemplam tua face
E faz alegres nossos corações

Tua canção todos comovidos põe
Deusa diva mãe

A melodia do canto do mar de tua voz
Reproduz-se nas conchas que somos nós  


André de Andrade é juazeirense, licenciado em História e pós-graduado em História e sociologia pela Universidade Regional do Cariri, tem especialização em Docência do Ensino Superior pela Faculdade Kurius. Ator e Diretor de Produção sindicalizado no SATED-CE. Produtor do Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri desde sua fundação tendo criado o programa Hora do Recreio. Atualmente exerce a gerência de Cultura Popular na Secretaria de Cultura de Juazeiro do Norte-Ce.        

                       (88) 8801 6642

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