quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Talentos da terra

A mostra "Artes que renovam a tradição" faz um apanhado da riqueza da produção de artesanato de quatro polos produtores do Ceará: Majorlândia, Icapuí e Juazeiro do Norte
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"Sanfoneiro", escultura do artesão José Cordeiro, de Juazeiro do Norte, é um dos destaques da exposição "Artes que renovam a tradição". A mostra reúne ainda peças de Cascavel, Majorlândia e Icapuí
FOTOS: THIAGO GASPAR
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O artesanato cearense é uma das principais fontes de riqueza cultural do Estado. A criatividade e a beleza dos trabalhos tecidos pelos artesão parece não ter limites. Há sempre algo novo surgindo, para transformar os motivos tradicionais: bichos exóticos, anjos, panelas e jarros de cerâmica, paisagens e retratos "pintados" com areia colorida, brinquedos de zinco e delicadas rendas de labirinto. Preciosidades artísticas que brotam das mãos sábias de marias, josés e raimundos espalhados por esse "Siará grande".

Na exposição "Artes que renovam a tradição", em cartaz até 30 de janeiro de 2001 no Sobrado Dr. José Lourenço, o público tem a chance de conhecer mais sobre o artesanato local. Uma viagem fantástica que reúne raros exemplares de quatro polos produtores do Estado: Cascavel (comunidade de Moita Redonda), Majorlândia (Aracati), Icapuí (nas comunidades de Morro Pintado e Ibicuitaba), e Juazeiro do Norte (por meio do Centro de Cultura Popular Mestre Noza).

A mostra integra o projeto Sala do Artista Popular, do Programa de Promoção do Artesanato de Tradição Cultural (Promoart), do Programa Mais Cultura do Ministério da Cultura (MinC), com a parceria regional da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult), através do Sobrado Dr. José Lourenço.

A Promoart incentiva a valorização dos saberes e fazeres tradicionais, com ênfase na qualidade de vida de seus artesãos, a partir de um mercado que reconheça a importância da produção artesanal. "A exposição Artes que renovam a tradição é um resultado da participação cearense no Programa. No Brasil há 65 polos, de quais quatro estão localizados no Estado", explica Germana Vitoriano, diretora do Sobrado.

Aberta para vendas, a exposição é composta por 572 peças, cujos valores variam de R$ 2 a R$ 4 mil. "Muitos dos objetos já foram vendidos, outros foram reservados. Temos tido uma boa procura. A exposição está sempre se reorganizando, a medida em que os objetos vão sendo tirados por conta das vendas. Os compradores locais só receberão as peças compradas após o término da exposição. Toda a verba será direcionada aos respectivos polos produtores", destaca a diretora.

Cerâmicas e garrafas
A exposição ocupa todos os andares do Sobrado Dr. José Lourenço, com as peças organizadas conforme seus polos de origem. No primeiro andar, estão as cerâmicas de Cascavel (Moita Redonda). A produção artesanal em barro da cidade, como se apresenta hoje teve início há mais de um século, na modalidade de utilitários domésticos, como panelas, potes, quartinhas e bacias. Transmitido a gerações, o ofício conta atualmente com cerca de 80 pessoas na região.

Após um breve passeio pelo mundo das cerâmicas, o próximo polo visitado é o de Majorlândia. Segundo o artesão Toinho Carneiro, o artesanato com areia colorida foi iniciado em Majorlândia por sua mãe, dona Joana, em meados do século XX. "Na época, as mulheres utilizavam o artesanato para a decoração de seus lares. Com o aumento da visitação, as pessoas começaram a se interessar em adquirir peças, até então feitas com motivos geométricos".

Dona Joana deslocou para as garrafas as paisagens da localidade, bem como o cotidiano da vida dos pescadores. Com o tempo, as técnicas de contorno das figuras e de socamento da areia nas garrafas foram sendo aprimoradas e novos desenhos e estilos com temáticas variadas foram sendo introduzidos. A exemplo dos trabalhos de Paulo Sérgio da Silva, que produz tipos de estampas com a técnica; e de Lídio, que faz retratos com areia colorida.

Rendas e brinquedos
No terceiro andar do Sobrado estão localizadas as rendas de Labirinto de Icapuí, produzidas por um grupo de mulheres que moram em Morro Pintado e Ibicuitaba, a 5 km da sede do município. Segundo consta, não há associação específica das "labirinteiras", todas participam da ONG Caiçara, que atua em áreas de beneficiamento da casca do coco e gerenciamento de uma pousada.

"São 25 artesãs que trabalham orientadas por duas mestras, dona Lourdes e dona Maria do Carmo. Dona Lourdes trabalha com peças pequenas, de cambraia e estopa, e dona Maria do Carmo trabalha com peças de linho de tamanhos variados. Dentre outras peças são produzidos jogos americanos, caminhos de mesa, toalhas de bandeja, guardanapos, jogos de cama e toalhas de banquete. Uma beleza só", diz Germana Vitoriano.

Por fim, o visitante tem a chance de percorrer por entre as artes de Juazeiro do Norte. Cidade que reúne um dos principais contingentes de artesãos e artistas populares do País. Neste polo há uma rica variedade de esculturas, relevos, brinquedos e objetos em madeira, barro pintado, vidro, flandres e zinco de seus principais mestres e artífices, criteriosamente selecionados no Centro de Cultura Popular Mestre Noza.

Criado em 1984 para ser um espaço de apoio ao artesão, o Centro de Cultura Popular Mestre Noza é hoje a sede da Associação de Artesãos de Juazeiro do Norte. Cerca de 90 artesãos efetivos entre homens, mulheres, mestres e discípulos participam da Associação produtora das obras vindas de Juazeiro do Norte, especialmente, para essa exposição.

MAIS INFORMAÇÕES
Exposição "Artes que renovam a tradição", em cartaz no Sobrado Dr. José Lourenço (Rua Major Facundo, 154 - Centro), até 30 de janeiro de 2011. Entrada gratuita. Visitas de terça a sábado, das 9 às 19 horas. Domingo, de 10 horas às 14 horas. Contatos: (85) 3101.8826/ 3101.8827

ANA CECÍLIA SOARESREPÓRTER

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