sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Porque o cinema não precisa imitar a TV


Ao apresentar “Malu de Bicicleta” no Festival de Paulínia, em julho do ano passado, o ator – e produtor – Marcelo Serrado mencionou Woody Allen e “Beijos Roubados”, de François Truffaut, como influências. Pode ser. Mas eu não iria por aí no esforço de “vender” o filme.



Por Mauricio Stycer, em seu blog

Ao apresentar “Malu de Bicicleta” no Festival de Paulínia, em julho do ano passado, o ator – e produtor – Marcelo Serrado mencionou Woody Allen e “Beijos Roubados”, de François Truffaut, como influências. Pode ser. Mas eu não iria por aí no esforço de “vender” o filme.

Trata-se de uma comédia romântica com a pretensão de não ser descartável, é verdade, mas acho que a grande contribuição de “Malu de Bicicleta” é outra. O diretor Flavio Tambelini mostra como a combinação de alguns elementos técnicos básicos é suficiente, mesmo num obra leve, para distinguir cinema de verdade de filmes feitos com a cara da televisão.

O filme conta a história de Luiz (Serrado), um empresário da noite, cuja maior diversão é trocar diariamente de mulheres. De passagem pelo Rio, um dia, ele esbarra em Malu (Fernanda de Freitas), que anda de bicicleta pelo calçadão de Ipanema, e se apaixona por ela.

Baseado no romance de Marcelo Rubens Paiva, o filme deixa de lado vários aspectos da história para se concentrar basicamente na evolução do caso de amor – e ciúme – entre Luiz e Malu, acompanhado de perto pela divertida equipe do empresário e por uma amiga da garota.

Seguro, Tambelini conduz esta história num ritmo que, para o espectador de seriados de televisão, habituados a uma piada a cada 30 segundos, pode soar enfadonho. Não é. O ótimo roteiro, de Paiva, com a colaboração de Bruno Mazzeo e João Avelino, evita os clichês, o excesso de didatismo e as piadas sem graça.

Outra qualidade notável de “Malu de Bicicleta” é conseguir mostrar São Paulo e Rio sem incorrer na reprodução de lugares comuns e cacoetes sobre uma ou outra cidade. É um filme, de fato, escrito por alguém que transita muito bem na Ponte Aérea.

Por fim, mas não menos importante, “Malu de Bicicleta” dá oportunidade ao público conhecer melhor uma ótima atriz, além de muito bonita, que é Fernanda de Freitas, além de trazer um elenco afiado, com bons desempenhos de Marcelo Serrado, Marcos Cesana e Marjorie Estiano.

“Malu de Bicicleta” não é um caso isolado. Há outros filmes brasileiros recentes que se saíram muito bem na tarefa de produzir entretenimento de qualidade sem repetir os modelos consagrados da televisão. Mas não é todo dia que isso acontece e é sempre bom saudar o fato.

Para quem não viu, cito três, “É Proibido Fumar”, de Anna Muylaert, “As Melhores Coisas do Mundo”, de Laís Bodansky, e “Reflexões de um Liquidificador”, de André Klotzel. E espero que essa lista possa aumentar. 


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